Archive for março 2017
Hoje
Hoje
fui a um enterro, mais um enterro, enterro de gente da família. Está aí,
algo que ajuda a refletir pacas, enterro e família. Enterro porque é o fim, não
existe desculpas a serem ditas, o que deveria ter falado, o que não deveria ter
feito, o que poderia ter remediado, a necessidade do custo mediante o ato,
todos os, si e, mas, se juntam, mas ainda se juntam as histórias...momentos de
felicidades mil, da infância, adolescência e idade adulta que não voltam mais.
Penso no dia em que irei morrer, como gostaria que fosse comigo, como gostaria
que ocorresse meu enterro. Teria netos a me carregar, sobrinhos, filhos, irmã,
amigos, militantes, amigos e demais pessoas que cativei durante a vida. Outra
vez, fui em um enterro que só foi dois parentes do falecido. Na ocasião,
acompanhando a namorada na época. Bizarro! Seria fruto da idade que avançamos
com o tempo, encolhemos ossos, corpos e amizades?! Apenas sentimos saudades,
fazemos viagens pela vida que não encontram respostas, apenas saudades. A
família é algo que não tive muito contato, tenho fragmentos em minha memória de
encontros com primos, tios, de primeiro, segundo, terceiro e demais graus. Não
tenho uma relação intensa com meus parentes, na verdade encontro-os mais nos
enterros do que em outros momentos ditos comuns, ou datas chaves de reprodução
do rito de tal instituição chamada família. Nós poderíamos averbar vários
motivos para isso, desde casamentos cedo, trabalho de muito cedo, obrigações
muito cedo, mudanças de parentes, brigas, afastamentos porque marido ou esposa
de fulano, trata mal a parente, para evitar atritos se afastam, os elos mais
fortes, aqueles parentes pater, mater ou parente mor, que aglutinava em torno
de si uma força que os demais não conseguem exercer e outros inúmeros fatores.
Só sabemos que a morte, serve como encontro com o passado, reflexão do presente
e encontros futuros. Meu passado sei de brincadeiras, lugares e momentos com
meus parentes, que lembro pelo nome de um, pela cara de outro ou pela citação
de mamãe. “Fulano, filho de ciclano, beltrano irmão de fulano, casado com
ciclano e neto de outro não sei quem!" Um encontro de estranhos cujo o
sangue nos une. Sangue que se encontra a cada enterro. O que sabemos é que
nossa memória viva, está reduzindo, nosso passado começa a se esvair pelo
tempo. A minha referência é que tenho uma linha que descende de cabo-verdianos,
talvez um índio e outras cinco mil misturas que o país propicie, mas uma coisa
somos em unanimidade: Negros! Pensando no presente, tenho mais 2/3 de vida em média,
então hora de fazer tudo que quiser, pois se desejar criar filhos é necessária
energia, se desejar viajar também, se desejar ampliar renda também e tudo isso
ao mesmo tempo.... Nós apenas vivemos, um dia de cada vez, mais as vezes temos
pressa, outras as vezes temos preguiça, as vezes nada temos, apenas vivemos
conforme a vida nos conduz, ou os caminhos que seguimos. Mais do que
consanguíneos agradeço a Deus pelo que ele me deu socialmente. Tenho três mães
(Dinda, Rose e Minha mãe), tenho melhor amigo, não casei porque não encontrei
quem me retire desse estágio de bem-estar com minha individualidade
(Respeitando cada ex-companheira, é claro!). Tenho amigos verdadeiros e alguns
colegas. É difícil e complexo este momento. Não há o que dizer que console as
pessoas mais próximas do (a) falecido (a), não sei como foram seus últimos
anos, não lembro de muitos momentos, apenas me apoio em minha mãe ou sigo perto
do parente mais próximo, em silêncio, rezando por quem se foi como sinal de
respeito, pensando nos momentos que tive (se eles existiram), e sigo, lembro
das músicas dos tempos de igreja, algumas parecidas com as Católicas, outras
que eles (evangélicos) passaram para nós também. Uma marca nos enterros de meus
parentes é o forte vínculo religioso. Hegemonicamente cristão, mas tombando
mais pra evangélicos pelo que reparei nos últimos que fui. Se as pessoas
pensassem que pra viver nesse mundo, nessa nossa sociedade que vivemos ralando
que nem um burro de carga esperando dias melhores, apenas a fé sustenta esses
corpos que se jogam no Central-Japeri, Central-Santa Cruz, ônibus, van, moto,
se jogam de 5, 6 ou 7 dias na semana pra viver pelo amanhã(filhos e netos), por
hoje (o pão), e pôr ontem (idosos que precisam de remédios, pois pobre vive pra
envelhecer e pagar plano de saúde ou comprar remédio, miseráveis apenas
esperando a morte!) Um dia será o meu, gostaria de que todos rezassem, um Pai-Nosso,
uma Ave Maria, cantassem o hino do Vasco. Um belo texto, talvez este ou outro.
Nenhuma escola de samba me cativou. Nenhum partido também. Não existe um hino
do movimento negro, mas se cantassem Identidade do Jorge Aragão ficaria feliz,
onde quer que eu estivesse, do alto ou debaixo da terra, ou ainda em nenhum
plano astral, que os humanos tentam cada um decifrar, criar ou crer, estaria
presente em cada coração dos que compareceram ao velório, dos ausentes e das
covas vizinhas que me serão dali por diante companhia.
