Archive for julho 2020
Brisa
A
rua! Em algum momento terei que sair pra rua. Sou dos serviços
essenciais, aquele que traz a compra de casa, aquele que vai
pagar as contas, aquele que acode os mais necessitados. Eu tenho que
ir a rua. Vejo um cenário apocalíptico! Pessoas sem máscaras,
máscara de lado, máscara no queixo, mascará no celular, mascará
na mão, máscaras no chão, crianças brincando, velhos no xadrez,
templos abertos pra rezar contra a doença que adora a aglomeração,
festa no condomínio, festa na favela, festa no vizinho, festa
profana que embala o sono eterno. Baixaria na baixada! Só sinto
falta de ar no caminhar, por ver as pessoas seguindo as regras, pelo
desregramento das pessoas e seu vazio de empatia. Máscara que cai da
falta de vergonha na cara, da ignorância e do desamor. Era pra ser
um cenário comum do cotidiano do século XXI, mas não é. Já somos
menos 6.000 brasileiros(70 mil brasileiros). O vírus político joga
os fascistas de verde e amarelo nas ruas no final de semana, a
república sangra a cada folhetim desta estação. Não chegou o
temeroso inverno, onde o vírus trará mais dor a esta e outras
nações - pelo menos em tese. E as pessoas, anestesiadas pela besta,
com o excesso de liberdade, a negligência consigo, ao próximo, com
os seus, a civilidade e a humanidade. Termos fora de uso, em desuso,
impuro num mundo onde os loucos estão no poder, a sanidade virou
segundo plano, no segundo turno, dos poucos instantes que marcaram
nossas vidas, ou a ausência de vidas, durante a nossa eternidade. A
bandeira brasileira, virou suástica de supremacistas yankees,
israelitas ou de onde beber sua fonte de distopia. Um sentimento de
medo, repulsa e indiferença sinto nesse momento. Nervos de aço é o
que me move a cada minuto. Quem vai se contaminar, quem vai me
contaminar, quem próximo a mim será infectado? Será nas filas da
caixa, na corrida do Uber, catando o lixo, na emergência, na
condução da lotação, na entrevista, na próxima esquina, no
delivery, na doação de alimento, na estação, na escola que
distribui os kits, naquele vento da ambulância que passou por mim? Quem
será o próximo? Quando serei vítima, remorso,
lamento, um
dado contado pelo ministério da saúde, OMS ou outro órgão
estatal? Não sei, não sei onde foi, como estou e onde vou. Vejo os
amigos adoecendo,
as notícias
se aproximando e a agonia me
contaminando. Quando
acaba essa agonia, política, biológica e social? Serviços
essenciais para a essência da sociedade de um Estado que me descarta. Subcidadão, como no twitter de Ale Santos, traduz
a cara do Brasil: “cidadão não, engenheiro civil formado, a cara
da elite do atraso, responsável pelo subdesenvolvimento do país,
desinformado e que usa a condição social para preencher o vazio da
sua existência.” Que essa pandemia seja breve!
Preferencialmente que eu saia
lúcido, preferencialmente bem, preferencialmente
com os meus. Sou a mão de obra pra esse “cidadão de bem”, que
se torna mais uma arma em meu caminho. Hoje como Almir Blanc, Abraham
Palatinik, Daniel Azulay, Daysy Lúcidi, dentre outros monstros da
minha história se vão, Reinaldo, o porteiro da minha escola, que
você não conhece, mais vai fazer falta aos amigos, familiares e
parentes, como uma brisa vou perdendo as referências do meu passado,
referência de quem seguir, referência do que esta por vir. Só
esquecemos que somos seres vivos, parte de uma cadeia dentre tantas
outras do reino animal. A hegemonia e controle sobre
os demais, deu uma certa miopia ao homem moderno. Uma lembrancinha
para os Homo sapiens: somos
parte e não o todo (Ubuntu).
Podemos nos unir para sobreviver (algumas espécies fazem isso), ou
ir rezar sem máscara como alguns templos aqui perto de casa. Qual a
opção mais racional? Qual a mais míope? Estamos cegos diante de
nossa mediocridade que chamamos de progresso/
Deus.
Só que nem Deus
mais é reconhecido pelos homens diante da tamanha vaidade.
