Postagens Populares

Ótica Singular On sábado, 11 de julho de 2020






A rua! Em algum momento terei que sair pra rua. Sou dos serviços essenciais, aquele que traz a compra de casa, aquele que vai pagar as contas, aquele que acode os mais necessitados. Eu tenho que ir a rua. Vejo um cenário apocalíptico! Pessoas sem máscaras, máscara de lado, máscara no queixo, mascará no celular, mascará na mão, máscaras no chão, crianças brincando, velhos no xadrez, templos abertos pra rezar contra a doença que adora a aglomeração, festa no condomínio, festa na favela, festa no vizinho, festa profana que embala o sono eterno. Baixaria na baixada! Só sinto falta de ar no caminhar, por ver as pessoas seguindo as regras, pelo desregramento das pessoas e seu vazio de empatia. Máscara que cai da falta de vergonha na cara, da ignorância e do desamor. Era pra ser um cenário comum do cotidiano do século XXI, mas não é. Já somos menos 6.000 brasileiros(70 mil brasileiros). O vírus político joga os fascistas de verde e amarelo nas ruas no final de semana, a república sangra a cada folhetim desta estação. Não chegou o temeroso inverno, onde o vírus trará mais dor a esta e outras nações - pelo menos em tese. E as pessoas, anestesiadas pela besta, com o excesso de liberdade, a negligência consigo, ao próximo, com os seus, a civilidade e a humanidade. Termos fora de uso, em desuso, impuro num mundo onde os loucos estão no poder, a sanidade virou segundo plano, no segundo turno, dos poucos instantes que marcaram nossas vidas, ou a ausência de vidas, durante a nossa eternidade. A bandeira brasileira, virou suástica de supremacistas yankees, israelitas ou de onde beber sua fonte de distopia. Um sentimento de medo, repulsa e indiferença sinto nesse momento. Nervos de aço é o que me move a cada minuto. Quem vai se contaminar, quem vai me contaminar, quem próximo a mim será infectado? Será nas filas da caixa, na corrida do Uber, catando o lixo, na emergência, na condução da lotação, na entrevista, na próxima esquina, no delivery, na doação de alimento, na estação, na escola que distribui os kits, naquele vento da ambulância que passou por mim? Quem será o próximo? Quando serei vítima, remorso, lamento, um dado contado pelo ministério da saúde, OMS ou outro órgão estatal? Não sei, não sei onde foi, como estou e onde vou. Vejo os amigos adoecendo, as notícias se aproximando e a agonia me contaminando. Quando acaba essa agonia, política, biológica e social? Serviços essenciais para a essência da sociedade de um Estado que me descarta. Subcidadão, como no twitter de Ale Santos, traduz a cara do Brasil: “cidadão não, engenheiro civil formado, a cara da elite do atraso, responsável pelo subdesenvolvimento do país, desinformado e que usa a condição social para preencher o vazio da sua existência.” Que essa pandemia seja breve! Preferencialmente que eu saia
lúcido, preferencialmente bem, preferencialmente com os meus. Sou a mão de obra pra esse “cidadão de bem”, que se torna mais uma arma em meu caminho. Hoje como Almir Blanc, Abraham Palatinik, Daniel Azulay, Daysy Lúcidi, dentre outros monstros da minha história se vão, Reinaldo, o porteiro da minha escola, que você não conhece, mais vai fazer falta aos amigos, familiares e parentes, como uma brisa vou perdendo as referências do meu passado, referência de quem seguir, referência do que esta por vir.  Só esquecemos que somos seres vivos, parte de uma cadeia dentre tantas outras do reino animal. A hegemonia e controle sobre os demais, deu uma certa miopia ao homem moderno. Uma lembrancinha para os Homo sapiens: somos parte e não o todo (Ubuntu). Podemos nos unir para sobreviver (algumas espécies fazem isso), ou ir rezar sem máscara como alguns templos aqui perto de casa. Qual a opção mais racional? Qual a mais míope? Estamos cegos diante de nossa mediocridade que chamamos de progresso/ Deus. Só que nem Deus mais é reconhecido pelos homens diante da tamanha vaidade.


Leave a Reply

Subscribe to Posts | Subscribe to Comments