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Ótica Singular On segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Anacrônicos


Às vezes nos sentimos deslocados de tudo e de todos, ficamos assim com aquele sentimento de que tudo tá errado, tudo ta uma merda, tá sem sentido. O mundo parece ficar estranho. E um sentimento estranho de identificar. O que vi no segundo episódio do mês de agosto da série ‘’A Grande Família’’ foi um retrato fiel de milhares de Tucos. Estamos imersos num mundo em que identidades, vontades, pulsões, tensões, vocações são orientados a atender ao mercado. Temos que ser alguém na vida, diria qualquer pai de família. Somos estimulados a ser todos Lineus, de terno e gravata, numa repartição pública ou privada querendo algo que possa dar o dinheiro ou dinheiro com status a nossa vida. Ou ainda por outro lado ser esperto, sermos Augustinhos na malandragem do dia-a-dia se dando bem, ou conseguindo as coisas aos trancos e acasos, mas firmando sua posição no mundo. Enquanto isso existe o Tuco, sem se situar no mundo, sem responder aos estímulos do homem ideal, sem ser retrato fiel do sucesso, prestígio e digno de ser alguém de respeito. Recortando que em um pais de pobres é ou classe média a realidade não comporta o Tuco idealizado identicamente igual ao do programa, mas com configurações diferentes em todas as classes ele se encontra. Somos um final, um meio talvez e um fim em si mesmo, mas de início, somos aqueles que sentem todas as dores do mundo dentro de si, somos um protesto politicamente corretos ou não, contra os desmandos dos políticos e chefes da nação, a perfeição da estupidez humana, de todos os covardes, assassinos, estupradores e ladrões.  O senhor da guerra não gosta de crianças, somos uma infância insatisfeita, rebelde, inconformada com as contradições da nossa realidade. Sofrer, ser e estar no tempo e espaço da felicidade dos ignorantes que às vezes gostaríamos de ser, ou acreditamos não ser, mas sentir o mundo de uma forma diferente das pessoas ditas normais, pelo menos nas redes sociais, selfs e status demonstram ser.  Somos aqueles cabelos azuis, vermelhos, verdes, lilás, de preto, de óculos, corpo não ideal, nerds, os que sentam no fundão, sozinhos dentro da multidão. Somos uma espécie de ovelha negra da família tentando agradar, mas ao mesmo tempo rejeitados pelas escolhas ditas ‘’equivocadas’’. Estimulados a atingir ao ideal, pela condição financeira, pessoal, existir é um fardo pesado quando não respondemos aos estímulos que nos é colocado. Querer apenas viver no mundo como as coisas são, falar e sentir cada momento dos nossos amigos como se não houvesse amanhã. Sentimos apenas a doce leveza do ser, do existir e de trocar experiências. Ai entra novos agentes na família, e agentes velhos com novos perfis, novos RGs do sucesso que encolhem mais os Tucos da vida e os expõem diante dos familiares o tipo contrario a ser seguido. Temos ainda aqueles que se foram antes do tempo, quem ficou meus amigos esta procurando emprego, como diria Renato, anacrônicos presos à própria moda, ao próprio estilo, a própria imagem, reflete quem somos não o que os outros querem. Cuidado, se parecer com marginal, ter amigos marginais, faz de você um. Sei! Somos aquilo que nos dizem, desculpe se os porcos de terno e gravata lhe agradam mais a vista que minha roupa descolada e minha cara cheia de barba! Devíamos melhorar nossa maquiagem. Onde todos fazem questão de ostentar e de se transformar em Barbie e Quem; quem sou? Você é? A dois quilos de maquiagem atrás você era? Somos o ponteiro do relógio que atrasou e corre sempre buscando um tempo que não volta, mais um tempo que também ainda não veio, tempo em que anacrônicos serão compreendidos e respeitados, quando os ponteiros serão ajustados e todos andarão próximos, mas isso não se torna um musical, pois cada um tem seu estilo, apenas respeitamos o som alheio. Ainda é cedo. Imagino a dor de Renato quando gostava daquilo que todo mundo não gostava, imagino a dor de Bertoleza ao perceber o abandono do amado, a dor de Tuco em não ser inspetor sanitário, como seu pai desejava... a dor de cada aniversário é um fardo, uma data ruim, que lembramos o quanto longe estamos do ideal de satisfação de nossa existência, logo não queremos comemorar. Ou as pessoas nos faz assim pensar. O homem, o humano, o ser é uma folha descartável frente às obrigações e imposições que indiretamente e diretamente somos expostos. A mulher solteira a cada evento em família, as pessoas perguntam quando vai casar, cadê o namorado como se houvesse apenas esse botão de pergunta e função de existência da mulher. Marvin ao perder o pai deve ter sentido todo o peso do mundo em suas costas, e as escolhas dele sempre foram de subsistência ou de papeis que os outros parentes e afins lhe cobraram e a vida lhe pós, será que ele sonhava com outras coisas? A sua namorada apenas gosta de você, e você deseja compartilhar bons momentos com ela, mas você esta com ela porque gosta não porque quer estar junto na promessa de que amanhã estarão juntos e felizes para sempre. É complicado porque a mulher deseja casar, e é estimulada socialmente para isso, e depois vem os filhos e depois, e depois, nos sentimos verdadeiros Man in de Box, - Alice in Chains- apenas tendo que responder a carta da promessa que iremos tornar elas felizes. A gente vive não sabe do amanhã, mas é complicado viver e saber que o prazer vira obrigação, não digo de larga a pessoa e nem trocar, apenas viver sem a pressão ou a obrigação de ter de fazer algo para cumprir uma promessa, porque vem à droga do papel social sufocar seus planos, sonhos e projetos de simplesmente viver. Egoísmo? Talvez, nosso jeito narciso de ser, mas ainda sim apenas somos aquelas pessoas no meio da multidão querendo a sua alegria naquela manhã, naquele show, naquele dia. Seus amigos estão com um ar próximo a isso, quase trinta, com o relógio da vida avançando e os papeis não sendo cumpridos. Seja homem! Diz a vida, mas como se homem fosse só se resumisse a isso. Seus amigos com todo o rigor da fé lhe impõe uma gaiola de opções quando a sua vida é refém das expectativas alheias, seus amigos músicos, filósofos, artistas de um modo geral, pensadores, roqueiros, amigos simplesmente que são assim, e se sentem perdidos dentro da mesma multidão vivem essa agonia das promessas descumpridas ou escolhas equivocadas. Sem casamento, sem emprego, sem dinheiro, logo ingerentes da própria vida, mas quando você tem dinheiro, tem casamento em vista e um bom emprego então está feliz? Será que somos apenas as expectativas alheiras? Sim, meus amigos, temos no fundo como diria Dayana, ‘’alma de artista’’ e que são massacradas, afundadas pela condição e pela coletividade que nos rodeia. Ao falar que faço pesquisa existe uma incompreensão, uma intolerância e uma arrogância, as pessoas olham como se fossemos o coco do cavalo do bandido.(Só falta a legenda: preto, pobre, morador da baixada, isso é mesmo pra você?). Somos todos furtadores dos sonhos alheios, trovadores da agonia, passageiros da ilusão, sentados em um quarto, num consultório com terapias sobre o caos que é nossa vida, ou o que o mundo caótico diz que ela é. Dói essas agressões, essas ciladas, essas tentativas de nos colocarem mordaças, identidades e espelhos que refletem tudo menos o que somos. Vai que dá certo! Jovens de quase trinta – no mundo atual somos velhos já, assim diz o mercado e também as pessoas, estéreis para produzir, estéreis para consumir, estéreis para viver – é sempre uma tentativa de produzir vários insucessos pessoais, basta ganhar um dinheiro e se dar bem. Estou longe de cair para tal opção de recursos pessoais, não ignorando as necessidades básicas, só apenas que toda a pressão que seja contra Tucos, nos torna rimas sem rima, poemas inacabados, flores de plásticos chorando, dormindo e cansados ao final da peça em cima do tablado. Dedico esse texto aos Tucos, a sociedade dos poetas mortos, aos poucos alunos que tive, com aquele ar e jeito de criticar tudo, de não entender nada da TV e viver intensamente, aos anacrônicos que se sentem aqueles estrangeiros dentro do próprio país.


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