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Ótica Singular On quarta-feira, 26 de julho de 2017


Rio de Janeiro, 02/01/2087

Olá Sra. (Um certo alguém),

      Outro dia, fui aos correios enviar uma carta. Até aí nada demais, já que é um veículo de comunicação secular. Pensando bem, em tempos de WhatsApp, rede social, celular, smartphones, tabletes, wi fi, em quase todos os estabelecimentos, este gesto parece arcaico, rudimentar, reflexo do atraso e de alguém pertencente a outro tempo. Se pararmos para imaginar que uma mensagem de texto para celular quase não é usada em tempos de celular com internet, intensificado com as redes sociais, e escancarando com os aplicativos de dispositivos moveis. Pelo WhatsApp, quase que instantaneamente, as informações são trocadas, duvidas sanadas e resoluções tomadas. Falar ao telefone, nem é tão comum, quando podemos mandar áudios gravados uns para os outros, organizando e agilizando possíveis confusões que o ruído, ou dinâmica que o interlocutor esteja passando. Uma carta, mais do que antigo, é considerada uma fuga, uma da ausência de coragem de dizer com textos ou palavras aquilo que gostaríamos de dizer. Penso que não! Uma carta é nossa exposição, nossa grafia, nosso domínio da língua, nosso mais íntimo em forma material que nenhum vírus da internet ou caixa de entrada pode deletar. (Devolva-me) A carta é um pedaço de papel, pedaço do céu, pedaço do coração que você queimará para esquecer ou guardará no mais íntimo baú, com a chave escondida, pois no amago da alma, você vai consultar o que viveu outrora. Uma carta, começa com o nome do destinatário, e se encerra com o nome do emissário. No corpo do texto, apenas duas almas que se tocam compreendem o que lhes motivou a isso. Sair de casa, caminhar não sei quantos quilômetros, pagar R$1,25 (pouca coisa comparado aos preços das coisas hoje em dia), para mandar um recado em meio a um universo infinito de possibilidades é algo gigante, se não preciosamente singular. Talvez seja um dos últimos dos moicanos quando faço isso, pois fui gerado no final dos anos 80, e perpetuei nos anos 90, realizando trabalhos escolares que exigiam ir à biblioteca, fazer margens, letras de máquina com régua, e os primeiros passos do computador. Não cheguei a fazer um curso de datilografia como minha mãe, mas acredito que o exercício da escrita começa a perder espaço neste período. Somando as facilidades e o tempo que irei obter uma resposta, creio que escrever uma carta é símbolo de resistência, como um protesto em meio a bombas e gases, nos mantivemos de pé, contra os abusos que sofrem os servidores do Estado do Rio de Janeiro, outrora Guanabara. A tinta vai secar, meu celular vou trocar, meus pés se cansarão, a caixa de entrada lotará, o papel vai amarelar, um e-mail e vou mandar, as cores das palavras vão mudar, uma nova estação vai chegar, a tecnologia avançar, mas tuas palavras dentro de mim vão ecoar, porque nenhum bit ou caractere é mais denso do que o trabalho, carinho e admiração que tua carta cravastes em meu peito. Lento, arcaico e rudimentar, mas vivo, atual e dinâmico como o sangue que corre em minhas veias, te mandei uma carta (Uma carta).

      Assinado,


Fausto L. O.

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